Análise e Opinião - Ajustes na economia: necessários ou não?

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Profa. Laura Carvalho do Departamento de Economia da FEA fala sobre o assunto

É muito importante separar os ajustes na economia realizados pelo governo neste ano em duas categorias diferentes. Primeiro, há um conjunto de medidas que podemos classificar como de ajuste microeconômico. É nesta categoria que estão, por exemplo, a alta do preço da gasolina e das tarifas de energia elétrica. Embora o governo tenha evitado tomar tais medidas por um longo período, justamente para evitar o impacto na inflação, esses ajustes se faziam, sim, necessários. O uso do preço dos combustíveis para controle da inflação, em particular, gera o efeito colateral de conter os lucros da Petrobras, o que, principalmente se levarmos em conta o momento difícil atravessado pela empresa, poderia prejudicar muito os investimentos da estatal. Tais investimentos, por sua vez, são cruciais para uma eventual retomada do crescimento econômico no país.

Em segundo lugar, há as medidas de ajuste fiscal, que visam reduzir o déficit do governo pelo aumento de tributos e/ou cortes de gastos públicos, para estabilizar a dívida pública. Considerando o aumento do déficit público nominal observado nos últimos dois anos, algum ajuste nas contas do governo federal pode ser necessário para que o Brasil mantenha o grau de investimento, que é conferido pelas agências de classificação de risco, e assim consiga continuar atraindo investimentos externos. No entanto, a depender de seu formato, o ajuste pode também aprofundar a recessão econômica e assim cavar o seu próprio fracasso, já que quando a economia não cresce, a arrecadação do governo também é mais fraca.

Nesse sentido, é preciso que o governo tenha cuidado com o uso de medidas que afetam diretamente o bolso do trabalhador, pois estas desestimulam o consumo das famílias e assim o crescimento. Os cortes de investimentos públicos também são particularmente nocivos, pois têm forte efeito recessivo sobre o emprego e a renda no curto e no longo prazo.

Já os ajustes anunciados pelo lado das receitas não são muito preocupantes. Em particular, as desonerações tributárias que haviam sido implementadas não foram muito eficazes no estímulo ao investimento privado, e podem então ser eliminadas sem maiores prejuízos à economia. Ainda pelo lado das receitas, os ajustes deveriam caminhar na direção de uma estrutura tributária mais progressiva, com maior incidência de impostos sobre os mais ricos em relação aos mais pobres. É muito bem-vinda, portanto, a discussão por membros da equipe econômica sobre o aumento e a federalização do imposto sobre heranças e/ou a criação de um imposto sobre grandes fortunas.

 


Data do Conteúdo: 
quarta-feira, 15 Abril, 2015

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