Evento “Brasil do Futuro” discutiu sobre riscos e vantagens do ajuste fiscal

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por Thaís do Vale 
O evento Brasil do Futuro, promovido pelo Centro Acadêmico Visconde de Cairu - CAVC -, entre cinco e oito de maio, reuniu especialistas para discutir a situação econômica atual, os fatores que levaram a ela e o que se pode esperar das medidas adotadas pelo governo, como o ajuste fiscal. Integraram a mesa de discussões os professores Fernando Monteiro Rugitsky e Simão Davi Silber, da FEA, e Otaviano Barros, economista chefe do Bradesco.

O professor Simão Silber afirmou que a pior forma de fazer ajuste é com recessão. Ele ressaltou que a carga tributária no Brasil é alta, desproporcional à renda per capita se comparada com países desenvolvidos. Entretanto, o gasto não é de qualidade, pois o serviço da máquina pública e as despesas com aposentadoria consomem a maior parte da arrecadação, sobrando pouco para investimentos. O professor Rugitsky concordou com ele, afirmando que o ajuste atualmente em curso pode levar a problemas na economia, especialmente porque o mercado externo não é favorável no momento.

Para ilustrar o cenário internacional, lembrou outras medidas do governo que não tiveram resultados positivos, como a queda da Selic e a regulamentação do mercado de câmbio, que acarretou no aumento do preço do dólar. ao expectativa era que o risco para investimento diminuiria devido à baixa dos juros e os produtos se tornariam mais competitivos. Porém, "o resultado não veio", comentou. Segundo Barros, a demanda externa está fraca e por isso a depreciação do câmbio não está surtindo o efeito esperado.

Outra medida desfavorável à economia foi a tentativa do governo de fortalecer os interesses das indústrias ao invés do setor financeiro. Porém, conforme destacou o professor, esses grupos possuem interesses parecidos, e o governo perdeu apoio dos dois lados.

Apesar de reconhecer que fazer ajuste fiscal em um período de corte de gastos é complexo, especialmente se ele envolver o corte de investimentos e o aumento de impostos, o professor Silber sustentou que o superávit primário é uma questão de sobrevivência, e que ele deve orientar a trajetória da dívida. Barros acredita que outras mudanças também são necessárias, como se criar regras para o controle fiscal, como a relação entre o tesouro e os bancos públicos (como o BNDES e a Caixa). Isso porque os investimentos em infraestrutura ficam muito comprometidos sem a participação do governo, e para que o principal venha da iniciativa privada, a taxa de retorno deve ser mais alta.

Analisando a economia de forma mais abrangente, Silber afirmou que faz 40 anos que o crescimento é modesto, processo iniciado após 1980, com o choque do Petróleo que nos desestabilizou. Até então, o país apresentava a segunda taxa de crescimento do PIB no mundo, atrás apenas do Japão. Segundo ele, atualmente nossa economia é muito fechada, com parcos ganhos de produção, pouca concorrência e baixo dinamismo: "O mercado brasileiro representa 3% do mercado mundial, e os outros 97%?" indaga o professor, complementando que "Estamos fora do mundo".

Exemplificando essa problemática, Barros lembrou que somos o país com o maior número de multinacionais, mas que nem elas estão integradas às suas matrizes, destinando a maior parte da produção ao mercado interno. Isso é um fato incomum, uma vez que o objetivo delas seria exportar para a própria empresa para reduzir custos e estar menos vulnerável a mudanças de ordem local.

Destacou que outro ponto alarmante desse cenário é que o Brasil é o segundo país emergente mais diversificado industrialmente, perdendo apenas para a China. Porém, não é competitivo em nenhum segmento, sendo que as nossas exportações são compostas majoritariamente por commodities. Ele concluiu afirmando que "o Brasil é muito precário no sentido de governança", e que é preciso investir nela. Além desses desafios, há ainda o baixo crescimento demográfico no país, o que torna o desafio da produção ainda maior pela redução do número de jovens. Por isso, para ele, um mercado de trabalho mais flexível é fundamental.

Data do Conteúdo: 
segunda-feira, 25 Maio, 2015

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